A cor daqui é preta, o cheiro é preto, o sabor é preto e mais preto do que meus sentidos, foi o sentimento forte comigo deixou-me nu e parado, sem avisar que havia frio, braço, gelo, nulo, entrando pela janela. Carregando consigo os meus cobertores e algum sentimento quente que lá fora se adaptou à temperatura gélida, ela se foi.
Persegui a ideia de queimar tudo durante dias, mas a minha caixinha de fósforos já não tinha mais palitos que os cabelos fossem vermelhos. Os pauzinhos se acabaram junto com os maços, junto das minhas pernas secas que, há semanas, não caminhavam até a padaria ou a qualquer lugar além da porta.
Mastigo o isopor amarelo e lambo os dedos sem pressa da vida. O telefone toca. É o primeiro Trim que escuto desde a quinta feira oca, será que atendo?
(Cida de Deus)
Capítulo 2
A luz do sol me arde os olhos. Tinha tanto tempo que não ia à claridade, já esquecera de que os raios luminosos não atravessam o meu delgado corpo e, com isso, minha silhueta se forma no chão. Não me interessava sair de casa, mas o telefonema, aquele telefonema...
Ela se esbarra em mim, sempre desatenta, me olha rapidamente, se desculpa e continua sua caminhada. Não me reconheceu. Será que estou tão diferente? Será que ela não se lembra? Será que não quer se lembrar? Será só distração? Isso não importa agora.
Ela se esbarra em mim, sempre desatenta, me olha rapidamente, se desculpa e continua sua caminhada. Não me reconheceu. Será que estou tão diferente? Será que ela não se lembra? Será que não quer se lembrar? Será só distração? Isso não importa agora.
(Tréveris)
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